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Três checagens evitam que acordo vire nova dívida

A auditora, contadora, consultora financeira e correspondente Nádia Pace, especialista em dívidas de pessoa física e jurídica, detalha como avaliar o valor justo do débito, o encaixe da parcela no orçamento e o impacto do pagamento à vista na rese...

Da Redação
Por: Da Redação Fonte: Agência Dino
05/11/2026 às 13h11
Três checagens evitam que acordo vire nova dívida
Karolina Grabowska/Pexels

Fechar um acordo de dívida sem medir a real capacidade de pagamento tende a abrir caminho para uma nova inadimplência poucos meses depois. Para interromper esse ciclo, a auditora, contadora, consultora financeira e correspondente Nádia Pace, especialista em dívidas de pessoa física e de empresa (PF e PJ), recomenda três verificações antes de qualquer negociação, em feirões ou fora deles: conferir se o valor cobrado é justo, checar se a parcela cabe no Raio-X do orçamento e avaliar se a quitação à vista preserva a reserva de emergência. Com 20 anos de mercado financeiro, ela soma cerca de 20 mil pessoas atendidas.

A reincidência ajuda a dimensionar o desafio. Conforme o Indicador de Reincidência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, 86,72% de quem entrou na inadimplência em agosto de 2026 já carregava registro de dívida não paga nos 12 meses anteriores, com intervalo médio de 69,2 dias entre um débito e o seguinte. Dados da Serasa indicam ainda que 42% dos inadimplentes de 2026, cerca de 34 milhões de pessoas, estavam negativados havia dez anos.

"Sair da dívida é a parte fácil. O difícil é não voltar. A pessoa ouve que é a maior oportunidade do ano, a última chance, fecha no medo, sem fazer a conta, e três meses depois a parcela que não cabia virou a dívida nova", afirma Nádia Pace, que relata já ter acumulado R$ 2 milhões em débitos no CPF, sem renda.

Como funciona cada verificação

O primeiro passo é identificar o valor justo do débito, já que um abatimento elevado pode esconder juros acumulados. "Se a dívida era de R$ 10 mil e, com os juros, virou R$ 100 mil, aí vem 50% de desconto e a pessoa paga R$ 50 mil: cinco vezes o que pegou. É desconto fictício, porque ainda tem juros dentro", explica.

O segundo envolve o Raio-X, que reúne o orçamento dos dois meses anteriores, do mês corrente e a projeção dos dois meses seguintes, com a nova parcela incluída. "Uma dívida de R$ 100 mil com 70% de desconto cai para R$ 30 mil. Parece maravilhoso, mas se esse valor não cabe no Raio-X, a negociação vira um novo problema", observa.

O terceiro trata da reserva de emergência, pois zerar a conta para quitar um débito deixa a pessoa desprotegida diante dos imprevistos do mês seguinte.

Vale a pena pagar dívida com o 13º salário?

O raciocínio se aplica ao 13º salário, cuja primeira parcela cai até 30 de novembro, mês em que a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) realiza uma das duas edições anuais de seu mutirão. "Eu não recomendo pagar dívida com o 13º antes de fazer a conta. O 13º forma primeiro a reserva. O acordo vem com o que sobra", resume a especialista. "Dá para negociar mesmo com a dívida em dia, sem esperar desconto grande, e é até melhor: evita que vire processo. Mas só depois de blindar a renda, que é o primeiro passo."

O que fazer quando a proposta não cabe?

Diante de qualquer resposta negativa, a orientação é não fechar o acordo nem cortar o contato com o credor. A Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021, artigo 54-A do Código de Defesa do Consumidor) protege quem, de boa-fé, não consegue pagar todas as dívidas sem comprometer o mínimo existencial, e exclui casos de fraude e má-fé. "Recusar acordo que não cabe não é calote, é também boa-fé", pontua a especialista, que orienta registrar a intenção de quitar, anotar o protocolo e manter rodadas periódicas de negociação até surgir uma proposta viável.

Dívida atrasada vira processo e penhora de salário?

Em setembro de 2026, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) definiu, no Tema 1.230, que a penhora de salário por dívida comum só ocorre em caráter excepcional, depois que outros meios de cobrança falharam dentro de um processo e sem prejudicar o sustento digno da família. A tese não fixa percentual, e a prova de que a renda é indispensável cabe ao devedor. "Sem processo, não existe penhora. Essa decisão não pesa em quem deve. Pesa em quem some", avalia.

O peso do cartão e o perfil de quem deve

Entre os endividados ouvidos pela especialista, 47% apontam o cartão de crédito como a dívida que mais incomoda, e os juros do rotativo chegaram a 451,7% ao ano em setembro de 2026, segundo o Banco Central. "Pagar só uma parte da fatura joga o resto no rotativo. Fatura é tudo ou nada", alerta.

Pesquisa própria feita com 3.062 alunos do programa, por questionário on-line entre 20 de maio e 16 de outubro de 2026, com amostra não probabilística, mostra que 56% devem mais de R$ 50 mil e 38% têm renda familiar de R$ 10 mil ou mais. Não saber por onde começar é o principal obstáculo para 45% dos participantes, enquanto 83% desejam resolver a situação em até 30 dias. "Mutirão tem todo ano. O que não pode é fechar um acordo que não para de pé. A meta não é o desconto. É dormir em paz", conclui.

Nádia Pace possui registro no Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo (CRC-SP 1SP273740) e é criadora do Viva Sempre Com Dinheiro, programa de negociação de dívidas e educação financeira. O passo a passo completo do método está em lp.vivasemprecomdinheiro.com.br. Depoimentos de alunos estão reunidos em metodonadia.com.br/resultados.

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